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Talasnal - Aldeia Viva

A estrada que serpenteia a serra da Lousã leva à descoberta de pequenas aldeias de xisto que pararam no tempo. Por ali já poucos são os que teimam em ficar.
No Talasnal parece mesmo não haver ninguém, mas ao fim-de-semana transforma-se e ganha a alegria de outros tempos.

Texto: Maria Leonor Vicente      Fotos: Vítor Castilho

A cortina que esvoaça ao vento, saída da larga porta de madeira do curral por baixo da casa de habitação, é o único sinal de que a aldeia não está só.
O silêncio apenas é quebrado pelos próprios passos que caminham sobre passeios de xisto, cuidadosamente acompanhados por um gato preto que teima em fazer amizade. É sexta-feira e o sol já está a desaparecer por detrás das montanhas que circundam a aldeia.

Ao longe ainda se avistam os terrenos de cultivo em socalcos, votados ao abandono, e um ou outro palheiro que ainda se mantém de pé, lutando contra a ruína. Já não há gado a pastar pelas encostas e as silvas tomam conta das pequenas fazendas, enleando-se em armadilhas intransponíveis.

 

           
Uma das entradas da aldeia

Os vários tons de xisto pincelam as casas, muitas recuperadas com a ajuda de fundos comunitários mantendo sempre a traça original. O longo e penoso trabalho que no passado colocou pedra sobre pedra deixou de conseguir enganar o tempo e várias casas vão-se desmoronando lentamente.
Durante a semana não se vê ninguém, mas aos fins-de-semana a aldeia enche-se novamente de vida, bem diferente da que em tempos conheceu. Forasteiros dos quatro cantos do país, e até de além-fronteiras, descobrem o acidentado caminho de curvas e contra-curvas da estrada em terra batida que parte das imediações da cidade da Lousã e passa por várias povoações de xisto, praticamente desertas.  Há anos que se luta por uma estrada de alcatrão, mas os ambientalistas opõem-se e até os visitantes reclamam porque acreditam que assim chegará o «turismo de massas», conta Amélia Dias, uma das proprietárias do restaurante Ti’Lena.

      
Tanque de lavar roupa público

É o único restaurante que existe na aldeia, funciona por marcação e apenas aos fins-de-semana. Este espaço nasceu depois do filho de Amélia Dias ter descoberto o Talasnal num acampamento de escuteiros. Apaixonou-se de tal forma pela povoação que acabaria por convencer a família a visitar a aldeia. Cativada, Amélia juntou-se com a irmã Lizete Dias numa sociedade que funciona com muita dedicação. Durante a semana, Amélia vive e trabalha em Coimbra, mas à sexta-feira ruma com a irmã Lizete, de Leiria, para a Serra da Lousã.

«As compras são feitas durante a semana, como se fosse para a minha própria casa», conta Amélia animada. «Não há quem queira trazer as coisas para aqui, temos que transportar tudo sozinhos», resume, salientando que a excepção é feita pelo fornecedor que traz a carne de cabra, criada nos arredores.

A chanfana é uma das especialidades da casa que está decorada de forma rústica. Nas paredes, de xisto à vista, figuram vários objectos das lides agrícolas e uma lareira ladeada por bancos em pedra convida a horas esquecidas de conversa.Todos parecem conhecer-se há muito. Turistas trocam longas palavras entre eles e as proprietárias juntam-se à tertúlia. Fala-se de tudo, mas os segredos das receitas ficam bem guardados.

  
Beco 


Olhar de outros tempos

Ti’Lena é mais do que um restaurante, aliás não foi baptizado com este nome por acaso. É uma homenagem à mais velha dos quatro habitantes permanentes do Talasnal. Tem mais de 80 anos e nos olhos de azul profundo lêem-se tempos de duro trabalho no campo.

De lenço na cabeça, sentada à porta da loja de artesanato da filha, que também aos fins-de-semana abre portas, conta histórias que a memória não apaga. Lembra os tempos passados na cidade da Lousã, enquanto a filha estudava, e o choque que foi regressar à aldeia. «Todos os dias chorava, mas acabei por me habituar. Agora já não me importo», conta.

Os “invasores” de fim-de-semana não a incomodam. Também a eles se habituou. São caras novas que por vezes se repetem, pessoas de passagem que ficam tempos esquecidos à conversa. É como se todos se conhecessem, como se naquele momento todos vivessem na mesma aldeia.

  
Casa Típica 

Com o som da água que corre sem parar como fundo, ti’Lena lembra com saudade o tempo em que se apanhava a azeitona e quando os dois lagares estavam a funcionar. Produziam-se muitos litros de azeite na aldeia, de qualidade «até o cheiro era outro, notava-se que era bom». Depois dos lagares fecharem ainda se fez azeite durante algum tempo num lagar de uma povoação vizinha, mas uma vez «misturaram qualquer coisa e nem para as lamparinas da igreja servia. Cheirava mal. Parecia que tinha óleo de carro misturado. Foi tudo para o lixo». Apesar de terem insistido, ti’Lena nunca fez queixa do sucedido, mas o lagar acabou por fechar.
     
No Talasnal ainda se mantêm as videiras seculares. Ti’Lena está sentada por baixo de uma que já ali estava quando nasceu. «Tem mais de 200 anos», assegura. As uvas são morangueiras e tão doces que apetece comer muitas. São de todos e podem-se provar sem receio.

  
Por baixo da latada fica a loja de artesanato 

Nesta pequena aldeia ainda se pode beber um licor ou aguardente de bolota, castanha, medronho ou mel, preparado como antigamente. São sabores que se mantêm e se encontram tanto na loja de artesanato, onde se compram os talasnicos (bolos típicos), como no restaurante ou no Curral. O bar que funciona numa das casas recuperadas, onde os bancos são troncos de madeira e as mesas grandes lajes de lousa. Nas paredes de pedra estão expostos utensílios de outros tempos: cadimas – espécie de serrote usado por duas pessoas que serviam para cortar tábuas; um ou outro mangual – instrumento que servia para bater o milho nas debulhas; várias turqueses, entre outros. Nos barrotes do tecto, vários papéis pendurados com dedicatórias são testemunhos de quem por aqui passou.

É possível pernoitar na maior das sete aldeias serranas da Lousã. Mas, à excepção da Casa de Abrigo, todas as habitações para alugar pertencem a particulares e podem ser reservadas por telefone.

 

 

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